23 de jun de 2012

Estalos

Sentada na poltrona macia
olho pelo vidro do ônibus e admiro a paisagem do cerrado lá fora
sinto vontade de me levantar e sair um pouco para aquecer o meu corpo junto às árvores frondosas lá de fora que mesmo na secura e calor terrível, se mantem firmes, com suas folhas verdes e brilhantes desafiando o poder do astro rei
o ar condicionado do carro está no máximo, e meu corpo mal agasalhado tremula suavemente, como reclamando a minha falta de cuidado com ele
esfrego as mãos umas nas outras tentando aquecê-las, mas o calor momentâneo logo se vai
olho ao meu redor, mas o ônibus vazio não me oferece saídas na busca pelo calor
me aquieto então, fecho os olhos e tento levar meu corpo para um lugar protegido e quente.
de repente ouço
ouço lá no fundo, bem baixinho, uma música soar como o ronronar de um homem apaixonado
imediatamente meus olhos umedecem
um calor involuntário sobe pelo meu corpo,
no entanto, apesar de feliz por sentir em mim o calor tão desejado
sinto também a dor
a toada triste daquela música, o som melodioso e saudosista do cantor, desperta em meu íntimo lembranças dolorosas de momentos mágicos que vivi,
a ferida mal curada reabre, e faz doer meu coração sofrido
aquele som inocente me faz frágil
me faz lembrar que o tempo passou rápido, silencioso e eu sequer percebi
me lembra o quão covarde fui
as palavras inconsequentes e duras que lancei no ar
das oportunidades e amores perdidos
da decisão apressada que quase destruiu a minha vida
ai moço! por favor troque essa música
e devolva meu equilíbrio
meu chão, meu mundo
antes que eu me perca, e nunca mais me encontre.



Val Araújo


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