23 de nov de 2010

Saudade

Conheci Rosana na sexta série do ginásio. Tínhamos a mesma idade, quase 14. Velhas!!! rsrs.  As semelhanças entre nós eram poucas. Ela cor de leite e eu de chocolate, ela não tinha mais pai, eu também tinha perdido o meu aos 12 anos, ela extremamente tímida e usando óculos fundo de garrafa, eu de uma energia inesgotável, muito popular na escola, jogava vôlei no time da escola, e vivia rodeada de amigos e amigas. Enfim, eu tive uma infância e adolescência maravilhosas.
Já Rosana, era uma garota retraída e com poucos amigos. Melhor dizendo, ela não tinha nenhum amigo.
Pois bem, Rosana chegou à escola quando as aulas já tinham começado. Chegou no colégio e todos começaram a falar da nova aluna branquela e ceguinha. Eu a percebi logo que chegou e fiquei quieta esperando ela se enturmar.
Todos os dias quando ela chegava para assistir as aulas, os alunos e alunas formavam grupinhos e jogavam uma piadinha quando ela passava com aquela sainha plissada cinza, blusa colegial branca, meia branca e conguinha azul. Sem falar no óculos horrível que ela usava e no cabelo cheio de cachinhos caindo por todos os lados. ainda hoje penso que ela acordava de madrugada para fazer, ou melhor, acho que ela nem dormia fazendo aquele penteado. Quanto ao uniforme do colégio, eu amava usar porque a saia era curta, e eu sempre gostei de roupa curta.
Bem, então quando os alunos jogavam uma piada, ela abaixava a cabeça, apertava os cadernos debaixo do braço, e apressava o passo para se afastar como se quisesse fugir de todos. Hoje eu penso em como os adolescentes podem ser maus.
A medida que a semana passava, eu percebia que as brincadeiras dos colegas ficavam mais agressivas e humilhantes. Resolvi então, intervir  e me colocar ao lado da novata. Meus amigos estranharam minha atitude, mas ninguém a discutiu porque naquela época eu tinha uma forma meio truculenta de resolver as coisas. Ou seja: partia para as vias de fato de verdade. Eu era uma peste!
Depois desse dia, Rosana e eu nos tornamos unha e cutícula.
Ela muito carente e insegura, e eu muito segura e decidida.
Fazíamos tarefa juntas, e ela me seguia para toda parte.
Penso que para a egoísta mãe de Rossana ver alguém fazendo o que ela deveria como mão fazer foi um alívio, mesmo que esse cuidado viesse de uma quase criança.
Dois anos se passaram, e Rosana foi se soltando, se tornando mais tranquila, se enturmou mais, e começou até a paquerar os garotos. Fiquei feliz porque percebi que ela já podia se proteger melhor da vida.
A única coisa que não consegui ensinar a Rosana, até porque ela não tinha nenhuma coordenação motora foi praticar esportes. Ela era uma trágédia grega, por isso pulamos essa etapa.
O ano acabou e entramos de férias. Fiquei uma semana na casa de um tio, e quando retornei corri para contar as novas para Rosana.
Cheguei lá encontrei tudo fechado, sem nenhum sinal de vida.
Voltei para casa disposta a voltar mais tarde, pois pensei que eles tinham saído.
Quando voltei novamente era noite, e as luzes estavam todas apagadas. Senti um aperto no peito, pensando o que significaria aquilo, e resolvi perguntar aos vizinhos se tinham visto minha amiga, no que eles responderam que elas tinham ido embora há quase 4 dias.
Fiquei chocada porque nem sabia que elas iam embora.
A vizinha então, disse que o padrasto de Rosana tinha sido transferido para outra cidade nãosabendo o nome ou o Estado.
Lembro que sentei no degrau da casa da Rosana e olhei para a rua sem ver.
Eu só pensava numa coisa: nunca mais veria minha amiga, porque nunca falamos sobre parentes, endereços. Essas coisas que criança nem sabem que existem. Naquela época pelo menos ninguém sabia.. Além disso,  nós´éramos crianças, por isso eu não tinha como achá-la.
E foi o que aconteceu.. Já se passaram 27 anos e eu nunca mais soube dela. Não sei se está viva, morta, qual a aparência. Nada! Foi como se ela tivesse sido tragada no tempo, só deixando em mim a saudade das brincadeiras, do carinho sincero e da amizadel. Se eu não sentisse saudade, e outras pessoas que são minhas amigas, não a tivessem conhecido também, eu poderia pensar que ela era minha "amiga invisível" que nem aquela do filme "Uma mente brilhante".
Hoje, eu percebo o quanto aquela garota tímida mudou a minha vida.
Ela, de certa forma me ajudou mais do que eu a ajudei, porque ela conseguiu fazer com que eu percebesse que a educação e a delicadeza tem entrada em todos os lugares, e não é pela força ou indelicadeza que se vence as melhores batalhas, e sim pela estratégia, disciplica e argumentação.
Ah, e como ela argumentava!, Mesmo tão jovem já era mestra nisso.
Portanto, por esses motivos, e pelo carinho que ficou que resolvi escrever e externar meus sentimentos de carinho e saudade pela garotnha que se foi. Sei que ela não teve como me achar também, mas eu sei que onde ela estiber hoje, se recordará com carinho de mim também.
Portanto, é para te dizer obrigada amiga que escrevo hoje aqui, porque é a única forma que tenho para te agradecer por ter feito de mim um ser humano melhor.

Val Araújo

3 comentários:

  1. Tia,
    Seu blog é interessante.
    Encontro em cada palavra, cada frase e em todo contexto: vida, experiência, relatos, diversão, alegria, sabedoria e etc...et.c...e mais etc...
    Incentivo sempre que dê sequência, pois cada dia me deparo com algo interessante pra ler..
    Vá em frente, garotinha!

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  2. Tia, vamos tentar encontrar sua amiga?
    É só pesquisar o nome completo dela no CDO.
    E começamos a investigação..
    Talvez encontramos ela aqui na internet..

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  3. Eu dou duas sugestões:
    Verificar na escola onde estudavam pra onde ela foi transferida na época e fazendo o caminho...
    a segunda, é procurar no site do TSE, afinal todo mundo vota né?
    Pra vc que FP é mais fácil, acho...rs

    Beijos!

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