26 de nov de 2010

Perdas

Hoje a saudade do meu pai bateu forte.
Do arrastar ligeiro de sua precata dentro de casa.
Da mesa grande de madeira na cozinha da minha casa, com cachos de banana pendurados em uma vigota que cortava a cozinha de fora a fora.
Saudade do  movimento constante de gente quando meu pai estava em casa.
São lembranças que guardo como um tesouro.
Aquele velhinho tinha  um coração tão grande que não cabia dentro do peito, por isso era querido por todos na cidade.
Os filhos então, eram seu xodó.
Éramos seis em casa, cinco mulheres e um homem. Nem preciso dizer, que meu irmão era o preferido por ser homem...rs. Coitado dele!! O preferido sempre é mais vigiado...rs
Lembro do quanto meu pai ficou orgulhoso quando meu irmão entrou na PM. A única tristeza que ele sentiu foi porque meu irmão teve que se mudar para Goiânia para poder trabalhar.
Meu pai não dizia, mas ele sentia muita falta dele.
Passou algum tempo, e meu pai "Sr. Raimundo Piloto", começou a diminuir o ritmo até quase não poder trabalhar por ter sido acometido de doêncas reumáticas. De repente aquela fortaleza se tornou frágil.
Certo dia, meu irmão veio de Goiânia para nos visitar, e meu pai parecia que estava só esperando por ele.
Me lembro perfeitamente do dia.
Jantamos, como sempre todos à mesa, pois meu pai gostava de ver a família reunida,  mesmo que fosse a comida mais simples.
Depois do jantar, ficamos cada um fazendo alguma coisa, e logo fomos dormir.
Como sempre, sou uma pedra, e dormi assim que coloquei a cabeça no travesseiro.
Acordei assustada ouvindo batidas na porta de casa.
Levantei apressada para ver quem tinha chegado, e vi meu irmão entrando. Não me recordo bem se ele entrou em casa fardado (uma farda marrom, sendo a calça num tom marrom chocolate e camisa num tom pastel claro), ou se estava à paisana.
Olhei para meu pai, e os olhinhos dele brilhavam como pérolas negras. Aquele olhar transbordava orgulho, felicidade pelo filho que voltava. Ele estava extasiado, dava para ver isso.
Meu irmão, estava acompanhado de um amigo, eu acho, e mamãe colocou comida para eles comerem.
Meu pai que não resistia à comida, comeu também, apesar da mamãe ter reclamdo por ele estar comendo tão tarde, se logo depois ia dormir, no que meu pai respondeu algo que não entendi.
Depois de todo o entusiasmo, fomos para a cama, e então tudo mudou em nossa vida.
Não sabíamos, mas aquele era o último momento que teríamos com nosso pai vivo.
Naquela noite perdemos nosso esteio, nosso norte.
Ouvi na madrugada, meu pai quase correr pela casa em direção ao banheiro.
Já fiquei alerta.
De repente escutei alguém gritar ou sei lá o que era aquilo.
Meu pai tinha caiído dentro do banheiro.
Ele tinha infartado.
Nunca tinha visto meu pai em uma situação tão horrível. Ele estava caído dentro do banheiro, com a calça aberta e tinha defecado nelas.
Fiquei chocada, e com a sabedoria dos meus quase 12 anos, percebi que meu tempo com meu pai nessa terra tinha terminado.
Meu pai  foi levado para o hospital, e chegando lá o médico demorou a atendê-lo.
Se hoje a saúde é a tragédia que é, imaginem 30 anos atrás!
Assim, meu pai ficou internado, todo entubado por vários dias. Eu ia visitá-lo todos os dias, e percebia que ele chorava nesses momentos porque lágrimas desciam de seus olhos.
No entanto, ele não conseguia falar, e eu só registrava aquele ronco ininterrupto saindo do peito dele.
Numa dessas idas para visitá-lo vi que todos choravam, e aí percebi que  tinha acabado de vez.
Esse dia ficou marcado em minha vida, era 20 de janeiro. Um dia após o meu aniversário que ninguém se lembrou, nem mesmo eu, meu pai se foi, e nos privou de sua alegria, sua sabedoria, sua presença tranquilizadora, e seu amor infinito.
No entanto, eu sei, e penso que todos nós sabemos que meu pai não se foi antes porque ele estava esperando para ver o filho mais uma vez para poder partir feliz e realizado.
Eu, apesar de não ter aceitado ver meu pai em um caixão, fiquei de longe imaginando como seria minha vida sem aquele homem tão amado. Até hoje, eu não consigo ir a um velório.
Portanto, aqui fica em meu blog, esses resquícios de minhas lembranças, que resolvi expor à quem os ler, não para me livrar deles, mas para diminuir a minha dor por perda tão grande.

Val Araújo

Um comentário:

  1. Triste e bela história de amor filial. É como diz a música "Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim".

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